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Um precedente grave que se abriu

Qual o futuro do Dakar?

O precedente está aberto! Pela primeira vez na história, uma suposta ameaça terrorista leva a melhor sobre um grande evento mundial. Impõe-se a pergunta: o Dakar morreu? Ou simplesmente se vê obrigado a mudar de filosofia e, sobretudo, de rumo? A América do Sul e a Ásia podem ser uma alternativa, mas se se abriu o precedente e há a opinião unânime de que o terrorismo existe à escala mundial, haverá mesmo futuro para o Dakar?

Crónica de Marco Barbosa - Fotos https://www.dakar.iol.pt

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Os optimistas defendem que não faltam soluções. Os cépticos não têm dúvidas de que se trata de uma morte até anunciada. E o que pensam os supostos sensatos, aqueles que são os especialistas da prova e os conhecedores dos territórios mundiais mais inóspitos? As dúvidas e as interrogações são mais do que muitas e certezas não as há, apenas hipóteses. Ou talvez até haja uma certeza: o Dakar não vai voltar a ser o mesmo, depois do anúncio do cancelamento daquela que seria a sua 30ª edição.

Quase certo é que, se continuar, o Dakar vai ter de mudar de rumo, ou seja de destino, o que equivale a dizer de continente. Depois da Algéria, Níger e Mali, foi a vez da Mauritânia fechar as portas do Dakar ao coração de África. Confinar a prova a Marrocos está fora de questão, pelas limitações geográficas do país, daí que a única solução para que o continente não deixe de ser visitado, passa pela Tunísia, pela já pacífica Líbia de Muammar al-Khadafi e pelo Egipto que, apesar de tudo, ainda não é considerado um país totalmente seguro.

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A confirmar-se a saída de África, o Dakar corre o risco de perder grande parte do seu misticismo, mas são muitos os que defendem que essa é a solução mais racional para que – pelo menos – se possa continuar a sonhar com a continuação da sua existência. A Ásia, até pela importância do mercado, perfila-se logo como hipótese, mas a América do Sul parece assumir-se como uma excelente alternativa, não só pelo facto de se tratar de um território menos “virgem” em termos de todo-o-terreno, mas até porque talvez se consigam reunir melhores condições de segurança do que na Ásia.

Mas apresentadas as soluções geográficas que, à data, parecem mais razoáveis para a continuação do Dakar, será que o seu futuro não merece outro tipo de considerações? Há um dado irrefutável e que fica para a história. A edição deste ano do Dakar fica marcada pela sua anulação e pela abertura de um precedente inédito que, por isso mesmo, fica na história: um grande evento caiu, pela primeira vez, perante uma suposta ameaça terrorista! Ou será que se tratou de uma decisão política, algo a que o desporto em geral devia estar imune?

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Mas vamos circunscrever-nos ao argumento da ameaça terrorista, revoltante, mas ainda assim menos agoniante que uma eventual “politiquice”: se, de facto, foi o terrorismo que venceu, o que leva a crer que a ameaça não se volta a repetir? O terrorismo não é um problema à escala mundial? A Al-Quaeda não actua em qualquer região do globo? E na América do Sul, quantos grupos guerrilheiros não procuram uma oportunidade de protagonismo para darem a conhecer as suas reivindicações?

O Dakar passou de uma arma apetecível, para um alvo vulnerável, sem sequer ter sido atacado no seu terreno, o que não deixa de ser irónico. No terreno que conquistou e no terreno em que conviveu com os mais remotos povos que habitam o planeta, com todas as suas tradições e culturas ancestrais, indiferentes ao desmesurado desenvolvimento do Ocidente.

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Sendo um alvo ferido e vulnerável, terá o Dakar futuro? Este ano, sucumbiu perante uma ameaça real que só o é para o Governo francês, pelo menos até dar a conhecer a especificidade da ameaça. O precedente está aberto. A redundância não é inocente e insistimos nela, porque marca um momento de viragem na história. Na aviação, várias têm sido as ameaças e nunca os aviões deixaram de cumprir as suas rotas. Têm havido adiamentos, mas cancelamentos de voos, só mesmo resultantes de greves, um mal de que não padece o Dakar, que até existe à custa de muitos voluntários.

Mas salvaguardadas as devidas diferenças, conseguirá o Dakar o mesmo que a aviação? Ou seja, em conjunto com os governos dos países que percorra, um reforço efectivo das condições de segurança, de modo a poder realizar a prova, mesmo que perante a ameaça de uns quantos extremistas e fundamentalistas, mais ou menos bem organizados?

O futuro o dirá, na certeza de que o Dakar não pode morrer. Seja como local de chegada ou como marca de inquestionável valor, que ainda hoje move multidões e faz sonhar desde o mais comum mortal, ao mais poderoso construtor.

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Perguntas sem resposta...

::Se houve uma ameaça real, porque é que não foi especificada pelo Governo francês?

::Não se abriu um precedente grave, cedendo-se a supostas ameaças terroristas?

::Porque é que a A.S.O. considerou não estarem reunidas as condições de segurança na Mauritânia, quando na semana anterior e sem que entretanto tivessem sido conhecidos outros desenvolvimentos, reconheceu, em comunicado, precisamente o contrário?

::Porque é que nunca foi anunciada a existência de um plano “B” em termos de percurso?

::Se a prova se designasse Paris-Dakar – ou seja, se partisse da capital francesa – Nicolas Sarkozy tinha sido tão zeloso com a segurança dos seus cidadãos?

::É verdade que, depois do Governo francês considerar a Mauritânia um país perigoso para os seus cidadãos, as companhias de seguros informaram os organizadores de que se  demarcavam das suas responsabilidades, caso se verificasse um atentado ou um incidente grave?

::É verdade que, nos últimos meses, a França perdeu o negócio de exploração do petróleo em território mauritano, a favor da China?

::Os rumores de que foi a Total que inviabilizou a realização da prova, por não garantir o fornecimento de combustível em África, fazem algum sentido? Recorde-se que a petrolífera é controlada pelo estado francês...

::Porque é que João Lagos entrou em sucessivas contradições? Umas vezes afirmou que, num tão curto espaço de tempo, não era possível montar um percurso alternativo e noutras reconheceu ter existido essa possibilidade, embora descartada pelo facto da suposta ameaça ser extensiva a Marrocos e ao Senegal e não à Mauritânia, em particular.

::A obstinação de ambientalistas e ecologistas franceses, não raras vezes com argumentos perfeitamente demagógicos, não terá contribuído para a decisão “política” de anular o Dakar?

::Ou será uma demonstração de poder de Nicolas Sarkozy? Quiçá uma forma de se afirmar por uma acção política, quando tem sido a sua conturbada vida social a merecer a atenção da comunicação social? 

Marco Barbosa

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Crónica anterior
A Teia

Bastou ler o primeiro ponto do protocolo recentemente firmado entre a Federação Portuguesa de Todo-o-Terreno Turístico (FPTT) e o Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA/GNR), que acaba de ser criado pela Guarda Nacional Republicana, para que ficassemos chocados.

protocolo

Lamentavelmente, a FPTT não tem pudor em revelar que reprimir é a sua principal preocupação pois, de acordo com o primeiro parágrafo do protocolo acima mencionado, a instituição que pretende liderar e gerir a vertente lúdica do todo-o-terreno compromete-se, antes de mais, a comunicar ao SEPNA/GNR “toda e qualquer actividade não licenciada pelos parâmetros da lei portuguesa de que tenha conhecimento”, assegurando estes serviços de delação pelo menos durante os próximos quatro anos.


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Um texto de Alexandre Correia*
*(Dir Revista Todo Terreno)
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